Festival de Verão Salvador

janeiro 21, 2008 at 2:32 pm 7 comentários

Transcreverei, abaixo, o texto do colega blogueiro Ricardo Cury, que sabe, como poucos, descrever situações do nosso quotidiano. http://www.ricardocury.blogspot.com/

“ÔÔÔ, aqui em Salvador. ÔÔÔ, a cidade do axé, a cidade do terror” ¹
Nos anos 80, minha mãe trabalhou como apresentadora de diversos programas de televisão e muitos deles eram na TVE, a TV pública da Bahia. De lá pra cá, a programação da TVE melhorou, porém, talvez, por ser pública, a coitada ficou sempre em segundo plano enquanto o governo do estado preferia investir na TV Bahia, a TV particular da Bahia.

Em dezembro de 2007, fui na TVE fazer uma pesquisa e, enquanto aguardava na recepção, vi chegando uns trabalhadores de alguma loja de varejo carregando uma mesa.
– Coloca onde? – perguntou um deles.
Era a mesa nova da recepção. Mesa em compensado, cinza. A tradicional para escritórios, com furos para cabos de computador e telefones, duas gavetas com chaves… bem básica. E feia. Os próprios trabalhadores se encarregaram de levar a outra velha embora. Depois de alguns segundos de mesa nova, a recepção estava bombando. Nunca achei que uma mesa daquela pudesse atrair tanta gente. Veio gente de todos os setores ver a mesa nova da recepção. Começou com uma funcionária da sala do lado, que passou pela recepção pra ir beber água. Percebi o tamanho do problema de infra-estrutura que passa a nossa TVE.
– Mesa noooooooovaaaaaaaa… Uau, que chique! – disse a tal funcionária, que foi contar a novidade pro pessoal de sua sala, que foi contar a novidade pra gente de outra sala, que também foi contar sobre a nova mesa para outros funcionários da TVE, e a notícia de que uma mesa nova fora instalada na recepção virou um evento. Jurei que a qualquer momento alguém iria passar servindo um prosecco. E a mesa lá, parada, quieta e horrorosa.

Um amigo que tocou comigo em uma banda de cover dos Beatles montou uma banda com mais duas pessoas e gravou um disco de 12 músicas. O disco foi muito bem feito, produzido musicalmente por andré t e Fábio Cascadura, e é cheio de participação especial. Como a banda, que se chama Aguarraz, é só eles três (violão, baixo e voz), eles precisavam de outros músicos para fazer shows e me chamaram para tocar bateria. Aceitei o convite por ter gostado do disco e, principalmente, pela facilidade de não ter de passar pelo processo de composição. Só precisei ouvir as músicas e decorá-las. Pela primeira vez estou tocando como músico contratado. O que tem sido uma experiência sensacional.

Durantes os ensaios, veio o convite para a banda tocar no Festival de Verão desse ano (2008), o maior festival do Brasil, segundo a TV Bahia, organizadora do evento.
Eu já tinha tocado nesse evento no ano anterior, com a minha antiga banda, quando chegamos no horário marcado pela produção para passar o som, pela manhã, e não tinha absolutamente ninguém da produção para nos recepcionar. Nem técnicos de som, nem os faxineiros, pois o palco ainda estava imundo, cheio de latas de cerveja pelo chão, da festa da noite anterior.

A banda ficou eufórica com o convite e eu aconselhei a irem esperando o pior, pois já tinha sentido na carne a falta de profissionalismo e a quantidade de pessoas estúpidas que trabalham na produção desse evento. Muitos deles, a esmagadora maioria, são trazidos de fora, principalmente de Rio de Janeiro e São Paulo.

A passagem de som dessa vez estava marcada para as 13 horas. A van nos pegaria às 11:30. Ligaram minutos antes dizendo que mudou. Seria às 14. Ligaram depois dizendo que mudou de novo. Agora seria às 16. Chegamos ao Parque de Exposições, local do evento, às 15 horas. Só começamos a passar o som às 17:30.

O Festival de Verão, quase todo ano, se repete. É nada mais que uma prévia do carnaval baiano. São sempre os mesmos. Ivete foi convocada para tocar no mesmo dia que a gente. Ela iria comemorar a sua décima participação no evento. Incrível a coincidência, era justamente a décima edição do evento.

Ano passado eu toquei na mesma hora de Gloria Gaynor, que teve seu último sucesso nos anos 70. Esse ano o festival se modernizou, trouxe Eagle-Eye Cherry, que teve seu último sucesso nove anos atrás.

Para mostrar que é gente boa, o Festival de Verão montou o Palco Tendências, que é onde tocam as bandas novas. Foi nesse palco que toquei ano passado e tocaria (toquei, pois o show foi ontem 16/01/08) na edição de 2008. Fomos escalados para dividir o palco com a ex-cantora da Timbalada, Amanda, que fecharia a noite; com a banda de reggae Ponto de Equilíbrio, do Rio; e, para manter a verve do evento, com a banda Tihuana, autora do sucesso Tropa de Elite. Sucesso esse do ano de 2000, mas que voltou por causa do filme…

Só subimos para passar o som às 17:30. A banda Tihuana ficou no palco por duas horas, regulando os microfones de cada chocalhinho da percussão. Aliás, os roadies da banda faziam isso, pois eram eles quem passavam o som. Os músicos estavam no hotel. Após a passagem de som da Tihuana, o palco finalmente foi liberado para a gente. Eles levaram a bateria deles enquanto as outras bandas dividiriam a bateria fornecida pelo evento. Sentei na bateria, montei as coisas e fiquei esperando a ordem do nosso técnico de som para que eu começasse a tocar.
Estava eu, esperando os problemas de cabos que não funcionavam serem resolvidos, quando chegou o baterista da banda Tihuana. Ele foi conferir se o roadie dele fez tudo certo. Sentou na bateria, no meio da nossa passagem de som, e começou a tocar. Ainda ligou um ventilador (que faz parte do seu kit), para o seu cabelo lambido ficar balançando enquanto toca. Abismado pela falta de educação do baterista do cabelo esvoaçante, fiquei olhando para ele, incrédulo, assim como todos no palco, quando fui surpreendido por um cara que nunca vi na vida, se mostrando mal humorado e impaciente, me cutucando:
– Venha cá, mermão, não dá pra você passar o som com ele tocando, não, é?
Naquelas frações de segundos que meu cérebro recebeu essa mensagem, tentei entender se ele tinha perguntado aquilo mesmo.
– Passar o som dessa bateria com outra bateria sendo tocada? – perguntei para confirmar o absurdo.
– Que é que tem? – confirmou ele.
Eu juro que, por uma outra fração de segundo, pensei em explicar o porquê que aquilo era impossível, mas, diante de tamanha ignorância, e, principalmente, falta de educação, achei que seria impossível fazê-lo entender. Depois descobri que ele era o Diretor de Palco do evento.
Fiquei sem saber se, para ele estar ali, contratado como Diretor de Palco, a organização do evento o contratou por:
(a) ele entender de palco e não entender nada de música;
(b) por ele não entender de palco e muito menos de música;
(c) por ele ser parente de alguém do alto escalão da produção do evento.

Trinta minutos após o início de nossa subida ao palco, e quinze após a saída do baterista do cabelo voador, o Diretor de Palco mandou, ordenou e exigiu que a gente saísse do palco imediatamente. Não passamos nenhuma música. O dia todo foi agendado para esse evento e tudo foi em vão. Quando o filme da desorganização, do desrespeito, dos atrasos e da série de erros sucessivos passou pela minha cabeça, não me contive, desci da bateria e fui falar com o Diretor de Palco.
– Ô, amigo, como é seu nome? – disse eu, no mesmo tom em que ele veio conversar comigo pela primeira vez em sua vida.
– Para quê você quer saber? – respondeu ele, com seu olhar de “boto pra fudê e você é um músico de merda de uma banda de rock da Bahia de merda e eu tô aqui te dando esmola pra você tocar”.
– Pra eu poder falar mal de você – respondi.
– Vicente – respondeu ele, com olhar corajoso.
– Vicente, seu nome rima com incompetente. Você é incompetente pra caralho.
Virei as costas e saí, ouvindo os seus protestos de “e você bota pra fudê, você bota pra fudê…”.
Imagino que ele tenha tido problemas na montagem do palco, mas nada justifica a sua grosseria e falta de educação.
Gilberto Gil, o Ministro da Cultura, que também tocou no mesmo dia que a gente, estava passando o som no exato momento dessa discussão. Ele mesmo passava o som junto com sua banda. Ele estava, enquanto sua banda executava o instrumental de Toda Menina Baiana, dizendo no microfone “Bahia… Bahiiiiiia… Bahia”. Em alguns “Bahia”, ele acentuava o “BA”, em outros o “IA”.

A melhor coisa do Festival de Verão é que ele tem vários palcos de esmolas. Tem esmola pra DJ, esmola pra banda de pagode, esmola pra Ivete… e todos os palcos tocam simultaneamente e são pertos um do outro. Ano passado, todo fim de música, eu ouvia um “Rááááááááái” de alguma banda de pagode no palco do lado.

Depois de passagem de som que não teve, voltamos para casa em dois carros disponibilizados pelo evento. No que eu fui, um Doblô, o motor morria e o motorista rodava a chave com o carro ainda em movimento, acionando o motor de volta. Fomos assim do Parque de Exposições até a Barra. Foi só o tempo de todo mundo tomar banho e se encontrar de novo para voltar ao evento para tocar. Uma parte da equipe foi no Doblô. Apu, nosso técnico de som de palco, foi nele. Dessa vez eu fui no outro carro.
– Se ligue que esse Doblô tá bixado. Toda hora o motor morria, quando eu vim nele – disse eu.
Apu e outros dois roadies da banda chegaram atrasados no evento e receberam uma bronca grosseira de uma paulista peituda chamada Gabriela, maquiada e com uma aparência “Luana Piovani”.
– Estão atrasados, que absurdo, assim não é possível, tem que ser profissionais…– disse ela, nervosa e gritando.
Apu, calmo como ele é, esperou ela espernear à vontade pra depois dizer:
– Cheguei atrasado porque tive de empurrar o carro que VOCÊ alugou pra servir a gente.
Infelizmente, acredito que, enquanto ela tiver aquele par de peitos, ela vai continuar sendo contratada (ou outras do mesmo naipe) para gritar, mandar e desmandar, achando que é assim que se conduz um evento.
Tudo bem, é melhor que um Vicente fazendo o mesmo.

Chegamos ao local do show e pude ver um pouco do show da Tihuana. Me questionei se eles tocariam a música tema do filme mais de uma vez no show, mas só tocaram uma vez, a última do show, fazendo o público esperar até o fim. Durante essa música, uma briga se formou. Meninas saíram correndo, enquanto meninos se esmurravam ao som de “tropa de elite osso duro blá, blá, blá…”. Os seguranças do evento, esperando loucamente por esse momento, já chegaram de bicuda pra separar a briga.
Fiquei de longe assistindo a cena e, obviamente, financiando a violência.

O show foi tranqüilo. Tinha pouca gente, mas os que estavam presentes prestaram atenção; o Diretor de Palco não apareceu; o som começou ruim e depois ficou bom, e o show foi divertido. Depois soube que o show passou na TV Salvador. Ivete não cedeu os direitos de imagem e, como o show dela foi no mesmo horário que o nosso, tiveram de colocar a gente no ar. Ganhamos esmola e, sem querer, uma mesa em compensado cinza. Ainda rolou uma pequena aparição no Jornal Hoje.
Ao fim do show, deu pra ouvir Ivete cantando “E aí, chupa toda, ai, toda, oi, chupa toda, ai, toda…”. Depois fui saber que era ela e o ministro juntos.

Na ocasião do Festival de Verão do ano passado, dei uma entrevista para um amigo, Tiago Ramone, que trabalhava para uma publicação ordinária, oriunda de um programa de TV ordinário chamado Pida!, para falar justamente do nosso show no evento. Durante a conversa, que foi pela internet, ele me fez a clássica pergunta “Como é tocar rock na Bahia?”.

Já viajei pra tocar com a brincando de deus em São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Recife… e todos perguntavam “Como é tocar rock na Bahia?”.

Para Tiago, respondi que era tão difícil quanto ser administrador na Bahia, publicitário na Bahia, professor na Bahia, atleta na Bahia… A campeã da travessia Mar Grande-Salvador desse ano tem 15 anos, morou na Bahia até os 14 e tem uma tatuagem da UNISANTA no ombro, instituição santista que a patrocina.

Na edição seguinte da revista do Pida!, que tinha Durval Lelys na capa e um ensaio fotográfico com Paullinha, a cantora da banda Levada Louca, tinha uma seção de “frases do mês” e a minha resposta sobre como é fazer rock na Bahia estava lá, entre aspas. Mas, embaixo da minha frase, estava uma outra frase, que resumia melhor ainda a Bahia:
“A abertura é o começo da fechação”.
Léo Krett, dançarino(a) do Saiddy Bamba, em entrevista ao jornal do Pida!.

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7 Comentários Add your own

  • 1. KK  |  janeiro 22, 2008 às 8:29 am

    Só depois de um depoimento desse pra gente saber dos podres.

    Responder
  • 2. Marcos  |  janeiro 22, 2008 às 9:26 am

    ehehehe. Muito bom o texto dele. Nada como uma testemunha ocular “gente boa” para nos contar o que realmente acontece nessa “terra da magia”. Sem depoimentos como esse, parece que tudo é realmente “só alegria”.

    Responder
  • 3. Gabeira  |  janeiro 22, 2008 às 10:21 am

    Texto sensacional!!! Introdução com o refrão clássico do Camisa e desenvolvimento irretocável. Conheço de perto todas as bostas que a gente tem que pisar pra conseguir tocar rock n’ roll na Bahia. Nunca toquei no Festival de Verão, mas sempre suspeitei que as bandas do palco “underground” fossem mal tratadas. Nessa terra, ou você está no esquemão, ou você é um eterno músico amador.

    Uma pena, considerando a quantidade de grandes artistas nos porões, botequins e inferninhos daqui.

    Responder
  • 4. Marcos  |  janeiro 22, 2008 às 11:39 am

    Quando é que essa ditadura vai acabar?

    Responder
  • 5. Tatiana  |  janeiro 23, 2008 às 1:22 pm

    O textos do Ricardo são sempre ótimos. Sou fãnzona dele. Um dos poucos que me fazem ler um texto sem deixar tempo pra eu respirar :P.

    Acho que aqui na Bahia isso nunca vai acabar. Sou pessimista mesmo neste quesito. Uma terra onde existe tradição de bons músicos como Raul Seixas, Caetano Veloso, João Gilrberto, hoje só dá espaço para lixo e bandas sem substância alguma. E o povo não faz questão que isso mude, os artista enchem o bolso de dinheiro, a ignorância continua e todo mundo acha que é a terra da alegria.

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  • 6. Marcos  |  janeiro 23, 2008 às 2:19 pm

    É mesmo, Tati. O povo gosta dessa mesmisse. Chiclete tem 30 anos, Ivete tem 10 só de Festival e eu não aguento mais ouvir a voz dela, as mesmas músicas bobas e todo mundo delirar com isso: verdadeiros autômatos.

    Responder
  • 7. Wanessa  |  janeiro 23, 2008 às 6:57 pm

    Adoro os textos de Ricardo também. (recomendação à parte: um texto que fala sobre o processo burocrático do cartorio do Pituba Park Center)

    É decepcionante a falta de profissionalismo e respeito desses produtore(zinhos).

    Responder

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